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quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Poema árabe
O meu filho coloca a sua caixa de pintura à minha frente
E pede-me que lhe desenhe um pássaro.
Mergulho o pincel na cor cinzenta
E traço um quadrado com fechaduras e grades.
Os seus olhos enchem-se de surpresa:
"... Mas isto é uma prisão, pai,
Não sabes desenhar um pássaro?
E eu digo-lhe: "Filho, perdoa-me.
Esqueci-me da forma dos pássaros.
O meu filho coloca o livro de desenhos à minha frente
E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.
Pego num lápis
E desenho uma arma.
O meu filho desdenha da minha ignorância, perguntando,
"Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?"
Eu digo-lhe: "Filho, uma vez usei a forma da espiga de trigo
a forma do pão
a forma da rosa
Mas nestes tempos duros
as árvores da floresta juntaram-se
aos homens da milícia
e a rosa veste uniformes escuros
Neste tempo de espigas de trigo armadas
de pássaros armados
de cultura armada
e de religião armada
não se pode comprar pão
sem encontrar uma arma no interior
não se pode colher uma rosa do campo
sem que os seus espinhos nos arranhem o rosto
não se pode comprar um livro
que não vá explodir entre os nossos dedos."
O meu filho senta-se à beira da minha cama
e pede-me que recite um poema
Uma lágrima cai dos meus olhos para a almofada.
O meu filho apanha-a, surpreendido, dizendo:
"Mas esta é uma lágrima, pai, não é um poema!"
E eu digo-lhe:
"Quando cresceres, meu filho,
e aprenderes o 'diwan' da poesia árabe
descobrirás que palavra e lágrima são gémeas
e que o poema árabe
não é mais do que uma lágrima chorada
por dedos que escrevem."
O meu filho pega nos seus pincéis,
a caixa de pinturas à minha frente
e pede-me que lhe desenhe uma pátria.
O pincel treme nas minhas mãos
e eu afundo-me, chorando.
Nizzar Qabbani
domingo, 26 de agosto de 2012
A janela
não sobrou nada:
só a ferida da memória.
e o ponto de encontro
e o cheiro das folhas em livros usados.
da janela:
uma canção entoa um amor antigo.
Como se fosse escrever o livro dos mortos -
torna-se a noite no seu costume.
Como se para brincar com uma tristeza que o acompanha -
dança sozinho na noite.
Hassan Najmi
Tradução de André Simões
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Coração Inquieto
Meu coração inquieto não se dá repouso
e o amor por ti não posso disfarçá-lo.
Lágrimas me caem: gotas de aguaceiro
sobre um corpo minguado, amarelento.
E, no entanto, estás perto, minha amada;
que seria de mim se tu te fosses?
Buscaram as desgraças atingir-me
com os teus olhos profundos de gazela.
.
Pelas estrelas cintilantes no escuro céu!
Pela própria lua refulgente!
Foi-se-me do jardim o meu orvalho
levado pelo perfume ligeiro do narciso.
.
Sabes, meu amor, estou pálido, cansado,
causa dó o meu estado - e tu tão indiferente!...
E ainda perguntas se estou doente
ou se me atacou o fogo do desejo!...
.
Senhora minha - alguém já te fez reparo -,
que injustiça a tua para quem te quer bem!
E ainda perguntaste: "sofres de desejo,
não aguentas a tua impaciência?"
Do meu querer duvidas, como és injusta:
notam-no os presentes e os que se ausentaram.
.
Allah!, deste imenso amor fiquei enfermo.
Como todas as paixões são fracas a seu lado!
Ele transformou o meu pobre corpo.
Quero a tua presença e não a alcanço.
Pede a Allah perdão por seres injusta,
pois todo o injusto deve pedir perdão!
.
(Al-Mutamid - Nascido em Beja, 1040 - f. em Marrocos em 1095)
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Eu sou tu
Viemos girando do nada
Espalhando estrelas como pó
As estrelas puseram-se em círculo
E nós ao centro, dançamos com elas
Como a pedra do moinho em torno de Deus
Gira a roda do céu
Segura um raio dessa roda e terás a mão decepada
Girando e girando essa roda dissolve todo e qualquer apego
Não estivesse apaixonada, ela mesma gritaria: 'Basta!'
Até quando há de seguir esse giro?
Cada átomo gira desnorteado
Mendigos circulam entre as mesas
Cães rondam um pedaço de carne
O amante gira em torno de seu próprio coração
Envergonhado ante tanta beleza
Giro ao redor de minha vergonha
Vem. Ouve a música do Sama
Vem. Imite ao som dos tambores
Aqui celebramos
Somos todos a verdade
Em êxtase estamos
Embriagados sim, mas de um vinho que não se colhe na videira
O que quer que se pense de nós, em nada parecerá o que somos
Giramos e giramos em êxtase
Esta é a noite do Sama
Há luz agora!
Luz! Luz!
Eis o amor verdadeiro que diz à mente adeus
Este é o dia do adeus. Adeus! Adeus!
Todo coração que arde nessa noite é amigo da música
Ardendo por teus lábios meu coração transborda de minha boca
Silêncio
Silêncio
Mas feito de pensamento, afeto e paixão
O que resta é nada além de carne e ossos
Por que nos falam de templo de oração, de atos piedosos?
Somos a caça e o caçador
Outono e primavera, noite e dia
O visível e o invisível
Somos o tesouro do espírito
Somos a alma do mundo
Livres do peso que vergasta o corpo
Prisioneiros não somos do tempo nem do espaço
Nem mesmo da terra em que pisamos
No amor fomos gerados
No amor nascemos
sábado, 30 de junho de 2012
Os opostos
Mesmo que te aconteça uma desgraça, considera com cuidado;
Olha bem aquele que te causa esse percalço.
A vista que contempla o fluxo e o refluxo das coisas boas e más
Abre para ti uma passagem do infortúnio para a felicidade.
Vês, portanto, como um estado leva-te a outro,
Um estado oposto gerando seu oposto em troca.
Se não sofreres temores depois de alegrias,
Como podes esperar prazeres depois de desgostos?
Enquanto temes a condenação do anjo da esquerda,
Os homens esperam a benção do anjo da direita.
Que possas ganhar duas asas! Um pássaro só uma asa
É impotente para voar, ó bem intencionado!...
Rumi
terça-feira, 26 de junho de 2012
Rumi - Amado
Sou artista
Pintor
Desenho imagens
Nenhuma se compara a teu fulgor
Sei criar mil fantasmas, dar-lhes vida
E se vejo teu rosto, dou-lhes fogo
Serves teu vinho ao ébrio na taberna
E abates toda casa que construo
Nossa alma em ti se dissolve, água na água, vinho no vinho, sinto teu perfume
Cada gota de meu sangue te implora: 'Faz-me teu par, dá-me tua cor'
Sofre minha alma na casa de argila, entra amado
Se não hei de partir
Hei de partir
Rumi
Destino do coração
Os olhos foram feitos para ver coisas insólitas
Fez-se a alma para gozar da alegria e do prazer
O coração foi destinado a embriagar-se na beleza do amigo ou na aflição da ausência
A meta do amor é voar até o firmamento
A do intelecto, desvendar as leis e o mundo
Para além das causas estão os mistérios, as maravilhas
Os olhos ficarão cegos quando virem que todas as coisas são apenas meios para o saber
O amante, difamado neste mundo por uma centena de acusações, receberá no momento da união cem títulos e nomes
Peregrinar nas areias do deserto nos exige suportar beber leite de camelo, ser pilhados por beduínos
Apaixonado, o peregrino beija a pedra negra ansioso por sentir mais uma vez o toque dos lábios do amigo
E degustar como antes o seu beijo
Oh alma, não cunhe as moedas com o ouro das palavras
O buscador é aquele que vai à própria mina de ouro
domingo, 24 de junho de 2012
Sobre o amor
Através do amor o que é amargo parece doce
Através do amor pedaços de cobre transformam-se em ouro
Através do amor as dores são como balsamos
Através do amor os espinhos se tornam rosas
Através do amor o vinagre vira vinho doce
Através do amor o pelourinho de transforma em trono
Através do amor um revés da fortuna parece boa sorte
Através do amor uma prisão parece um jardim de rosas
Sem amor um jardim parece uma grelha cheia de cinzas
Através do amor o fogo ardente é uma luz agradável
Através do amor o demônio se torna uma huri
Através do amor pedras duras tornam-se macias como manteiga
Sem amor a moliceira de transforma em duro ferro
Através do amor a tristeza é como alegria
Através do amor os vampiros se convertem em anjos
Através do amor ferrões são como mel
Através do amor os leões são dóceis como camundongos
Através do amor a doença é saúde
Através do amor a ira é como misericórdia
Através do amor os mortos ressuscitam
Através do amor o rei torna-se escravo
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Lua de Shabriz (Poema Árabe)
Com a maré da manhã surgiu no céu uma lua
De lá desceu e fitou-me
Como falcão que arrebata o pássaro essa lua agarrou-me e cruzou o céu
Quando olhei para mim já não me vi
Naquela lua meu corpo se tornara, por graça, sutil e com alma
Viajei então em estado de alma e nada mais vi se não o amor
Até que o segredo do saber divino me foi por inteiro revelado
As nove esferas celestes fundiram-se na lua e o vaso do meu ser dissolveu-se inteiro no mar
Quando o mar quebrou-se em ondas a sabedoria divina lançou sua voz ao longe
Assim tudo ocorreu
Assim tudo foi feito
Logo o mar inundou-se de espumas e cada gota de espuma tomou forma e corpo
Ao receber o chamado do mar, cada corpo de espuma se desfez e tornou-se espírito no oceano
Sem a majestade do amado, não se poderia contemplar a dor, nem tornar-se má .
sábado, 4 de outubro de 2008
"Ela dançou a dança das chamas e do fogo, a dança das espadas e das lanças; e ela dançou a dança das flores ao vento. Ao terminar, virou-se para o príncipe e fez uma reverência. Ele então, pediu-lhe que viesse mais perto e perguntou-lhe: 'Linda mulher, filha da graça e do encantamento, de onde vem tua arte e como é que comandas todos os elementos em seus ritmos e versos?"
"O Viajante" de Khalil Gibran Khalil
*A hora da união*
De toda a parte chega o segredo de Deus
Eis que todos correm, desconcertados
Dele, porque em todas as almas estão sedentas, chega o grito do aguadeiro
Todos bebem o leite da generosidade divina
E querem agora conhecer o seio de sua nutris
Apartados, anseiam por ver o momento do encontro e da união
A cada nascer do sol oram juntos: muçulmanos, cristãos, judeus
Abençoado todo aquele em cujo coração ressoa o grito celeste que chama
'Vem. Limpa bem teus ouvidos e recebe nítida essa voz'
O som do céu chega como um sussurro
Não manches teus olhos com a face dos homens
Vê que chega o imperador da vida eterna
Se te turvaram os olhos
Lava-os com lágrimas pois nelas encontrarás a cura de teus males
Acaba de chegar do Egito uma caravana de Açúcar
E já se ouvem os sinos e os passos cansados
Silêncio. Eis que chega o rei que vai completar o poema.
Desconheço o autor
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